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Momento DiVino "Uma viagem à doce Tokaj e seu Vinho dos Reis" 22/08/26 - A Tribuna Jornal - Santos
MOMENTO DIVINO 22-08-2026

Santé! Há vinhos que a gente bebe. E há vinhos que a gente precisa conhecer de perto para entender por que entraram para a história.


Foi assim que cheguei à Oremus Tokaj, na Hungria, durante minha passagem por Budapeste. Fui atrás de um dos mais famosos vinhos doces do mundo, o Tokaji Aszú, conhecido há séculos como o Vinho dos Reis, Rei dos Vinhos.


E já aviso que a história começa com uma “podridão” que, neste caso, é nobre.


A responsável é a Botrytis cinerea, o fungo que, quando encontra as condições perfeitas de umidade e clima, perfura a casca da uva e faz com que ela perca grande parte de sua água. O resultado são bagos enrugados, concentradíssimos em açúcar, que lembram pequenas uvas-passas.


No Tokaj, essas uvas passificadas são chamadas de Aszú. E cada bago é selecionado manualmente, por mulheres. Não há pressa, aqui o trabalho é praticamente artesanal.


A Oremus foi fundada em 1993 pelo grupo espanhol Vega Sicilia, que enxergou no terroir de Tokaj uma vocação extraordinária para os vinhos doces. A nova edificação ficou pronta em 1999 e, desde 2000, a vinícola produz seus vinhos.


Cerca de 100 hectares de vinhedos se espalham pela região e com seis variedades, entre elas Furmint, Hárslevelű e Sárgamuskotály (Moscatel Amarela), além de pequenas parcelas de Kövérszőlő e Kabar. A vinha mais antiga da propriedade, Petraj, tem hoje mais de seis décadas e algumas trabalhadas com técnicas tradicionais, inclusive com auxílio de cavalos.


Comecei a visita na sala de recepção, diante das garrafas que contam um pouco dessa história. O primeiro brinde foi com o Mandolás 2023, um branco seco de Furmint, muito bom e eu já conhecia. Depois, fomos para os jardins, de onde se descortina a paisagem de Tokaj, marcada por três montanhas e pelos rios da região, entre eles o Bodrog.


 

Mas a parte mais interessante ainda estava por vir.


Estávamos apenas eu e minha filha e fomos recebidas por Batankak, estudante de negócios internacionais do vinho. E quem nos conduziu pela parte mais técnica da visita.


Provamos o Oremus Late Harvest, vinho foi criado como uma porta de entrada para os doces húngaros no mercado internacional. Diferentemente do Aszú, o Late Harvest “pode” reunir cachos com uvas de colheita tardia e botrytizadas.


A diferença está justamente na concentração provocada pela podridão nobre.


Quando a Botrytis ataca a uva nas condições certas, ela pode fazê-la perder cerca de 80% de sua água. É aí que o açúcar, os ácidos e os aromas ficam sensivelmente concentrados.


E então chegamos aos famosos puttonyos. Os puttonyos são os tradicionais cestos de madeira utilizados para transportar as uvas Aszú, com capacidade aproximada de 25 quilos. Historicamente, a quantidade de cestos de uvas botrytizadas adicionada ao vinho determinava a classificação de 3, 4, 5 ou 6 Puttonyos, correspondendo a diferentes níveis de doçura.


Hoje, essa classificação deixou de ser utilizada para novas categorias de Aszú, mas continua fundamental para compreender a história desses vinhos.


E existe ainda o mais extraordinário de todos, o Eszencia. Aqui não há contagem de puttonyos. As uvas Aszú são colocadas nos recipientes e, antes mesmo da prensagem, o próprio peso dos bagos faz escorrer lentamente um líquido extremamente concentrado. É o chamado néctar da uva. Esse mosto pode conter quantidades impressionantes de açúcar e fermenta de maneira lentíssima, podendo permanecer anos em evolução. Na Oremus, o Eszencia pode passar até 15 anos entre amadurecimento e envelhecimento antes de chegar ao consumidor.


É vinho? É néctar? É quase uma experiência religiosa. E aí entendi por que a palavra “divino” cabe tão bem nesta história.


Descemos finalmente às caves. Antes, recebemos coletes quentinhos, porque lá embaixo a temperatura fica entre 10 °C e 12 °C. Depois de alguns minutos, eu já estava mais preocupada com meus pés do que com a Botrytis! As caves guardam o silêncio e a temperatura necessários para que os vinhos evoluam lentamente. Os secos passam alguns meses em carvalho húngaro; os doces permanecem muito mais tempo. O Aszú pode passar pelo menos um ano e meio nos göncis, barris de 136 litros, dependendo do vinho e da safra.


Provamos diferentes expressões da casa, entre elas o Oremus Tokaj 2018 - 3 Puttonyos, Oremus Aszú 2017 - 5 Puttonyos, e o Oremus Aszú 2016 - 6 Puttonyos.


E foi impossível não pensar na paciência necessária para produzir um vinho como esse.


Finalmente veio o inesquecível Eszencia 2013. Servido em uma colher de sopa de louça branca, parecia concentrar ali toda a essência do Tokaj. Uma gota de puro mel, mas com a delicadeza e profundidade difíceis de explicar. Apenas contemplei!

Enquanto nós, consumidores, abrimos uma garrafa em alguns segundos, existe uma história de anos por trás dela. No fim da visita, olhando aquelas garrafas descansando na temperatura baixa das caves, ficou uma certeza de que Tokaj não produz apenas vinho doce. Produz tempo engarrafado. E talvez seja justamente por isso que, depois de conhecer suas caves, o famoso Vinho dos Reis faça ainda mais sentido.


Um verdadeiro Momento Divino.


Até a próxima taça!


momentodivino@atribuna.com.br 
@claudiaenoamigos
*no meu instagram você acessa imagens da visita.




A Journey to Sweet Tokaj and Its Wine of Kings


Cheers! There are wines we drink. And there are wines we need to experience up close to understand why they have become part of history. That is how I arrived at Oremus Tokaj, in Hungary, during my stay in Budapest. I went in search of one of the world’s most famous sweet wines, Tokaji Aszú, known for centuries as the Wine of Kings and King of Wines. And I already knew that this story begins with a “rotten” grape — in this case, a noble one.


The culprit is Botrytis cinerea, a fungus that, under the right conditions of humidity and climate, penetrates the grape skin and causes it to lose much of its water. The result is grapes with an extraordinary concentration of sugar, reminiscent of little raisins.


In Tokaj, these shriveled grapes are called Aszú. Each berry is selected by hand, one by one. There is no rush here; the work is almost entirely artisanal.


Oremus was founded in 1993 by the Spanish group Vega Sicilia, which recognized an extraordinary vocation for sweet wines in the region. The new winery began operating in 1997 and has been producing its wines since 2000.


Approximately 100 hectares of vineyards are spread throughout the region, with six varieties, including Furmint, Hárslevelű and Sárgamuskotály (Muscat Blanc à Petits Grains), as well as small plots of Kövérszőlő and Kabar. The estate’s oldest vineyard dates back more than six decades, and some of the vines are still worked using traditional techniques, including the help of horses.


I began the visit in the reception room, in front of the bottles that tell part of this story. The first wine was the Mandolás 2023, a dry white made from Furmint, a grape I already knew well. Then we headed into the gardens, where the Tokaj landscape unfolded before us, marked by three mountains and the rivers of the region, among them the Bodrog.


But the most interesting part was still to come. We entered the cellar. We were barely there for a moment when my daughter and I were welcomed by Panka Batta, a student of international wine business who guided us through the most technical part of the visit.


We tasted Oremus Tokaj Harešt, a wine created as a gateway for the sweet wines of the international market. Unlike Aszú, the Late Harvest can bring together grapes from late harvests with botrytized grapes.


The difference lies precisely in the concentration produced by noble rot. When Botrytis attacks the grape under certain conditions, it can cause the berry to lose around 80% of its water. This is when the sugar, acids and aromas become highly concentrated.


And then we arrive at the famous puttonyos.


Puttonyos are the traditional wooden baskets used to transport the Aszú grapes, with a capacity of approximately 25 kilos. Historically, the number of baskets of botrytized grapes added to the wine determined the classification: 3, 4, 5 or 6 Puttonyos, corresponding to different levels of sweetness.


Today, this classification is no longer used for new Aszú categories, but it remains fundamental for understanding the history of these wines.


And there is one extraordinary wine above them all: Eszencia. Here, there is no addition of puttonyos. The Aszú grapes are simply placed in special containers and, under their own weight, release what is essentially a liquid so extraordinarily concentrated that it seems to capture the very essence of the grape.


It may contain astonishing amounts of sugar and ferment incredibly slowly, remaining in evolution for years. At Oremus, Eszencia can take up to 15 years to mature and age before reaching the consumer.


Is it wine? Nectar? Almost an experience of another kind. And I understood why the word “divine” fits so perfectly into this story.


We finally descended into the cellars. Before that, we received warm coats because the temperature in the caves ranges between 10°C and 12°C. After some time, I became more concerned about my feet than about Botrytis! The cellars require the appropriate temperature and humidity for the wines to evolve slowly.


The dry wines spend a few months in Hungarian oak barrels; the sweet wines remain much longer. An Aszú can spend at least a year and a half in oak barrels, depending on the wine, in addition to remaining in the bottle for further aging.


We tasted different expressions from the estate, including Oremus Tokaj 2018 – 3 Puttonyos, Oremus Aszú 2017 – 5 Puttonyos, and Oremus Aszú 2016 – 6 Puttonyos. And I was impressed once again by the patience required to produce a wine like this.


Finally came the unforgettable Eszencia 2013. It was served in a white porcelain soup spoon so that we could concentrate all the essence of Tokaj. A drop of pure grape, but with a delicacy and depth that are difficult to explain.


Just experience it!


As consumers, we open a bottle and drink it within a few seconds, without realizing the story behind it. At the end of the visit, looking at those bottles resting at the appropriate temperature in the cellar, I was certain that Tokaj does not simply produce wine.


It produces time.


And perhaps that is precisely why, after getting to know its caves, its wines and, above all, the famous Wine of Kings, I understood them even better.


A true Divine Moment. Until the next toast!

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